chávenas usadas

tic toc

fevereiro 27, 2012

Saiu do palco sozinho, o pensamento pedira-lhe mais alguns minutos. Revia o modo como procedera em palco e concluiu que fizera um bom trabalho. Isso deu-lhe alguma satisfação. Já em frente ao espelho do camarim, molhou um pedaço de pano e começou a retirar a máscara tão cuidadosamente pintada. Agora não passavam de bocados de tinta desbotados e espalhados por toda a face. Retirou o que restava com o outro lado do tecido e verificou a eficácia da sua limpeza no seu reflexo. Olhava-se agora sem olhos para que estivessem esbugalhados, abria a boca desaparecida, surpreso. O desespero começou a tomar conta dele e esforçou-se para produzir algum som, mas a boca era agora uma parte fantasma que já não lhe pertencia no entanto ainda a podia sentir. Tocou as bochechas, procurou o nariz, as sobrancelhas, o queixo. Encontrou apenas o sinal de loucura que há tanto escondia. Agarrou nas tintas e tentou desenhar tudo, talvez conseguisse fazer algo com as suas máscaras, as mãos tremiam-lhe enquanto riscava a cara numa tentativa de traçar humanidade. Usara a máscara durante demasiado tempo e esquecera-se da verdadeira.

1 comentário:

  1. Adorei.. aqui neste texto o personagem,tal como na vida, muitos o fazem por obrigação ou decisão própria,usa máscara que esconde ou embeleza, ou dá alegria a quem observa o oculto...esconder.se dos demais por qualquer que seja a razão é um risco que se corre...Perder a identidade é muito difícil de aceitar...:)mas este relato está lindo,fala-nos de sentimentos,de magia de Vida...

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