Tenho medo de mim.
De todas as batalhas que travei, que travo e que espero vir a travar, aquela que nasceu comigo é definitivamente a mais assustadora. Perigosa e tão longa quanto uma vida, destrói aos poucos tudo o que sou. E eu, para a combater, tenho que exterminar o que resta. Todos aqueles sentimentos que ameaçam o bem-estar são mortos e enterrados, e os leões selvagens são domados para lutar por mim e não contra mim. Mas lutar por é lutar contra. O que sobrevive desta confusão não passa de um ser louco e paranóico que nada tem a fazer senão levar uma vida normal debaixo de água, onde os peixes voam e a gravidade não prende a imaginação. E portanto escreve o que lhe parece ser uma história antiga do futuro, à espera da cabine de polícia azul. Cabine essa que nunca virá, que foge dos paradoxos da sua cabeça e se esconde no contínuo espaço-temporal. Os paradoxos não páram e os leões escapam, os sentimentos erguem-se das campas e a loucura é guardada para depois.

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