chávenas usadas

tic toc

julho 05, 2011

Olhava pela janela, mas não observava a paisagem. Na sua cabeça ecoava o que restara de uma discussão sem sentido. Uma relação acaba numa discussão sem sentido quando ninguém tem coragem de lhe dar o seu sentido. Portanto, apanhara o primeiro comboio que lhe aparecera, apenas com uma mala. Apesar da quantidade de vidas que ali se encontravam, o som consistia apenas do movimentar das locomotivas. Ninguém falava, ouviam música com grandes auscultadores. Ela era provavelmente a única pessoa naquela carruagem que não o fazia. Nunca gostara de ouvir música sozinha. Preferia a melodia do quotidiano. A música impedia-a de pensar no que realmente importava e o que realmente importava impedia-a de pensar na música. Tentava não pensar na sua situação. Sabia que tão cedo não iria poder analisar correctamente o que se passara. Podia apenas utilizar pensamentos de outras alturas em que se sentira assim. As pessoas reparam no que, pelo menos pela sua aparência, lhes pode trazer algo bom. E quando descobrem que talvez não seja bem assim, já estão demasiado envolvidas. E sempre que se envolvera demais, ela saíra magoada. E era então que apanhava o primeiro comboio que lhe aparecera, apenas com uma mala. Com o passar do tempo, já nem desfazia a mala. Era-lhe natural fugir num comboio, começar de novo, e quando as coisas se complicassem, bastava-lhe comprar outro bilhete, para outra cidade, para outra vida. Quando o comboio parou, sacudiu a cabeça, como quem sacode a tristeza e sorriu. Saiu do comboio para ser recebida pelas luzes da cidade. Desta vez escolhera… Sabem que mais? Vou parar de escrever. Em vez disso, vou meter-me num comboio e vou ser a protagonista desta história. Hasta *

Sem comentários:

Enviar um comentário