chávenas usadas

tic toc

agosto 22, 2012

Passos, lentos e algo melancólicos. Ouvia-os, e uma curiosidade imensa crescia dentro de si. Curiosidade, acompanhada dum certo receio e um rebuçado de caramelo mastigado lentamente. Algumas dúvidas depois, o buraco da fechadura apaga-se, e o som cessa. Sustem a respiração e empurra o rebuçado para um canto da boca com a língua. E a língua, essa, também pára, à escuta. Todo o seu corpo fica hirto, à espera de algo, um sinal, de que o caminho está livre. Durante o que lhe parece uma eternidade, nada. Até que um grunhir se faz ouvir. E a fechadura ilumina-se novamente, os passos ganham uma nova vitalidade. Ganha coragem para se baixar, muito devagarinho, até à fechadura. E espreitar. Claros no armário em penumbra, os olhos abrem-se ainda mais, maravilhados, com duas pequenas luzes curiosas a estudar a visão para lá da fechadura. Pequena, só lhe permitia observar o torso que se movimentava freneticamente. E ao canto, à frente da cómoda onde os pais guardavam as memórias, levantava-se a caixa do azul mais belo que alguma vez havia visto. Inclinou-se para ver melhor, esquecendo-se do seu esconderijo. Caiu, arrastando consigo as roupas outrora perfeitamente penduradas. Levantou a cabeça, e descobriu um homem a olhar para si, ambos tão surpreendidos e maravilhados. Envergava uma camisa com um lacinho ao pescoço, e suspensórios seguravam-lhe as calças. Era a pessoa mais estranha que alguma vez tinha visto.

1 comentário: