- Desculpe, senhor, mas o seu relógio está partido.
- Oh, obrigado, menina, talvez tenha batido ao entrar no autocarro.
A criança sorriu e dirigiu-se para um dos lugares do fundo, saindo assim do seu campo de visão. Não analisou quem mais pudesse estar ali no autocarro. Em vez disso, virou-se para a janela, encostou a cabeça ao de leve no vidro frio que lhe oferecia algum descanso. Parou para observar uma última vez o relógio, marcando um velho hábito. Era realmente uma peça fantástica, de cabedal e com vários arabescos decalcados. Contudo, o mostrador estava lascado, várias linhas se desenhavam a partir do centro e impediam a leitura. Os ponteiros estavam parados, desde as quatro em ponto de um dia qualquer. Na verdade, encontrara-o no chão. Muito tempo atrás, enquanto caminhava na cidade, pensava na vida que deixara ao fechar a porta minutos antes. Absorto nisto, sentiu algo debaixo do sapato. Pisara um relógio. Então parara para o segurar, com medo que fugisse. Vendo a sua figura desfigurada, notou que se assemelhavam, homem e máquina, ambos abandonados no mundo. Decidira guardá-lo, e ali estavam ambos, ainda sem reparo. A paragem do autocarro foi bruta e despedaçou todos estes pensamentos, e os esquecidos saíram para as ruas.

As ruas estavam vazias, a velha estrada calcada de pedra mármore branco contrastava com o granito negro coberto de pintas claras. O sol estava tímido, a luz chegava ténue e tímida so solo, à rua vazia e solitária, ao rosto da pobre alma que continuava a olhar para o seu relógio, perguntando-se agora o porquê de fechar uma porta se no minuto seguinte o tempo apenas parou? Pensamentos estranhos, memórias invadiram o cérebro da pobre alma, relembrando o sorriso daquela criança, o sorriso daquela mulher, o sorriso daquele relógio de parede, na cozinha, que tantas vezes parava por falta de pilhas ou simplesmente porque não queria funcionar. A vida tornara-se monótona para ele, até para o pobre relógio de pulso que ele trazia consigo, agora quebrado pelo tempo, ou melhor dizendo, pelo pé do bom homem, que outrora havia deixado uma família para trás. Por vezes, o que temos pode não ser o melhor, mas decerto que o melhor é aquilo que temos, mesmo que não o saibamos. Após tanto tempo deambulando por ruas amargas e ténues, mármore tingido pelas finas gotas de chuva que começavam a cair, o caminho era certo e sabido; Regressar era sempre uma ideia, humildade acima de tudo. Coragem foi trazida pela chuva, que limpou a cobardia e trouxe consigo o arrependimento. O sorriso da criança ficara-lhe na mente, dizia ele, enquanto olhava para o relógio. Retomar o caminho, desta vez a pé e não de autocarro seria uma limpeza no espírito. Andou e andou e andou, até que uma loja pequenina de relógios, ao fundo de um beco o apanhou. Sorrindo para si mesmo, afinal ele não era o único que deveria ser tirado da amargura da monotonia, mas também o seu fiel amigo e companheiro. Passados alguns pingos de chuva, relógio e entidade avançavam rumo a um caminho melhor, rumo a um local onde o tempo parara, pronto para o receber, a ele, uma vez mais. O sorriso nos lábios dela e o olhar no rosto dele agradeciam por, uma vez mais, o terem trazido a casa são e salvo. O dito relógio, vendo a sua missão comprida, desaparecera do seu pulso, e viajou até nova porta, até novo desafio, até nova hora, esperando ser pisado outra vez, esperando parar o tempo, dar tempo a um outro alguém para pensar, para encontrar uma menina que lhe diga "Desculpe, senhor, mas o seu relógio está partido"...
ResponderEliminar