Pedes-me para ficar, eu digo que
não. A cotovia já canta, é manhã e devo partir. Se não o fizer crio raízes,
não, não pode ser. Eu não funciono assim. Mas lá fora está frio, o ar da noite
ainda não se dissipou, congela-me as entranhas se sair, assim neste frio, não,
não pode ser. Por isso fico, só mais cinco minutos. Se assim não for, terei as
raízes à mostra, e isso não deve acontecer. Se não me deixas ir, abro a janela.
Livre aqui não estou, as raízes tornam-me dependente de ti, deste solo, desta
água. Lá em baixo há flores, muitas, e não são de ninguém. Selvagens, como eu.
O vento é forte na torre, a grade da janela é escorregadia, principalmente com
pés descalços. Talvez possa voar para longe daqui. Não posso, não devo, fico
dividida se crio raízes, e eu não funciono assim, dependente de ti, desta água,
deste solo. E num momento de loucura vou de encontro a ele. Livre, estilhaçada,
para voar.

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